
Você provavelmente não tem muito tempo. Alguém morreu, uma criança está no quarto ao lado ou no banco de trás do carro, e o que você precisa não é de uma teoria sobre como as crianças entendem a morte. Você precisa de uma frase que dê para dizer em voz alta sem quebrar no meio. Contar que o avô morreu é uma conversa diferente de contar que a mãe morreu, e explicar a morte para uma criança de quatro anos é diferente de explicar para uma de nove. Esta página traz as palavras para cada caso.
Contar a uma criança que alguém morreu é uma conversa, não um comunicado, então esta página começa pela frase. Depois: a mesma frase trocando quem morreu, as palavras para cada idade do bebê ao adolescente, quatro conversas escritas por inteiro, respostas honestas às quatro perguntas que as crianças fazem, as frases a evitar, uma folha de decisão para o velório e o enterro, como são as primeiras semanas, e a quem pedir ajuda.
Este é um guia de conversa, não uma orientação clínica. Os serviços no fim da página são de quem faz isso profissionalmente, e procurar um deles na primeira semana é razoável, não sinal de que algo deu errado.
A primeira frase, e por que ela precisa ter a palavra morreu
A melhor abertura publicada vem do Dougy Center, o centro de luto infantil de Portland, nos Estados Unidos:
Meu amor, eu tenho uma notícia muito triste. O papai morreu. O coração dele parou de funcionar. Ele teve um infarto e os médicos não conseguiram consertar o coração dele.
Quatro frases. Avisa a criança de que vem algo, diz o fato com a palavra morreu na segunda frase e não na décima, explica morrer de um jeito que uma criança consegue imaginar, e nomeia a causa para que ela não precise inventar uma.
Diga morreu, e não uma palavra mais macia. A Child Bereavement UK resume numa linha: é importante usar as palavras reais, morto e morreu. Uma criança que ouve que perdemos o vovô vai querer saber quem está procurando por ele.
Monte a frase em quatro partes, e depois pare de falar.
| A parte | Como ela soa |
|---|---|
| O aviso | "Vem sentar aqui comigo. Eu tenho uma notícia muito triste." |
| O fato, com a palavra morreu | "O vovô morreu esta noite." |
| O que morrer é, no corpo | "O corpo dele parou de funcionar e não pode voltar a funcionar." |
| A causa, dita com nome | "O coração dele estava muito doente e os médicos não conseguiram consertar." |
A mesma frase, trocando quem morreu. A ordem das quatro partes não muda. Muda o nome que a criança usa para a pessoa, e muda a causa. Em português quase sempre a pergunta chega assim, pelo parentesco: como contar que o avô morreu, que a mãe morreu, que o pai morreu. Esta é a linha de partida para cada um deles.
| Quem morreu | A frase, dita em voz alta |
|---|---|
| O avô | "Vem sentar aqui comigo. Eu tenho uma notícia muito triste. O vovô morreu esta noite. O coração dele estava muito doente e os médicos não conseguiram consertar. Ele não vai voltar." |
| A avó | "A vovó morreu hoje de manhã, no hospital. Ela tinha uma leucemia, que é um câncer do sangue, e o tratamento não conseguiu segurar a doença. Não é uma doença que a gente pega de alguém." |
| A mãe | "A mamãe morreu hoje à tarde, no hospital. O coração dela parou, e os médicos tentaram por muito tempo e não conseguiram fazer ele voltar a funcionar. Eu vou te levar na escola na segunda e todos os dias depois disso." |
| O pai | "O papai morreu hoje à tarde, no hospital. Ele teve um AVC de manhã, que é uma lesão de repente dentro do cérebro, e os médicos não conseguiram consertar o estrago. Ele não acordou mais e não sentiu dor." |
| Um irmão ou uma irmã | "O Lucas morreu hoje de manhã. Eu vou te contar exatamente o que aconteceu, igual estou contando para os adultos. Nada que você disse ou pensou tem qualquer relação com isso." |
| Um tio, uma tia, um primo | "O tio Marcelo morreu hoje à tarde no hospital. Ele foi atropelado por um carro de manhã e os ferimentos foram graves demais para os médicos consertarem." |
| Um animal da casa | "O Pingo morreu. O coração dele parou e ele morreu. Ele não vai acordar, porque morrer não é a mesma coisa que dormir." Tem uma seção só sobre isso mais abaixo. |
Diga o nome da doença, se houve uma. O Dougy Center é específico: se a pessoa morreu de câncer ou de leucemia, diga isso, em vez de dizer que ela ficou muito doente. Uma criança que aprende que ficar doente é o que mata as pessoas passa a ter um medo novo esperando a próxima gripe da casa, inclusive a dela.
Conte hoje, e conte você. A mesma orientação recomenda contar às crianças o quanto antes, para que elas ouçam de alguém de confiança, e não de outra criança, de uma ligação ouvida pela metade ou de uma tela.
Diga menos do que você preparou, e depois diga o que vem agora. Dê uma explicação curta e deixe as perguntas decidirem o resto. Depois uma linha sobre o dia da própria criança: quem vai buscar ela, onde ela dorme hoje, quem vai cuidar dela. A primeira pergunta particular depois de uma morte quase sempre é prática, e responder antes que ela pergunte poupa a criança de ter que perguntar.
Como não começar. Não com uma instrução sobre como se comportar, do tipo pedir que a criança seja forte, ou forte pela mãe. Não com uma pergunta ("você sabe o que aconteceu?"), que joga nela a tarefa de adivinhar. E não com a promessa de que vai ficar tudo bem.
O que dizer em cada idade: explicar a morte a uma criança, do bebê ao adolescente, com as palavras exatas
A tabela se apoia num único arcabouço. O pediatra David J. Schonfeld, escrevendo no Journal of Pediatric Health Care em 1993, descreveu os quatro conceitos que uma criança precisa alcançar para que a morte signifique para ela o que significa para um adulto. Irreversibilidade: a morte é permanente e, diferente dos personagens da tela que morrem e voltam, ninguém volta. Definitividade: todas as funções do corpo param, então a pessoa não vê, não ouve, não sente frio nem sente dor. Inevitabilidade: tudo que é vivo morre um dia. Causalidade: as crianças precisam ser levadas até a causa real, porque a causa que elas inventam costuma ser elas mesmas.
Uma palavra sobre as faixas. Toda fonte séria divide a infância de um jeito diferente, então as linhas abaixo são uma síntese feita para que cada faixa tenha palavras presas a ela, e não para virar um padrão. O seu filho pode pertencer à linha de cima ou à de baixo em relação ao aniversário dele. A Child Bereavement UK, a orientação sobre luto infantil da Sociedade Brasileira de Pediatria, a organização de cuidados paliativos de Milão VIDAS e o serviço italiano Unobravo publicam cada um as suas faixas, e vale ler.
| Idade | O que ela está tentando entender | As palavras, ditas em voz alta |
|---|---|---|
| Menos de 2 anos | Nenhuma noção de morte. Ela registra a ausência. | "A mamãe morreu. Ela não pode voltar. Eu estou aqui e estou cuidando de você." Dito com simplicidade, e de novo amanhã. |
| 2 a 3 anos | Para sempre ainda não significa nada, então a morte é uma ausência que deveria terminar. As palavras são entendidas ao pé da letra. | "O vovô morreu. Isso quer dizer que o corpo dele parou de funcionar e não pode voltar a funcionar, então ele não vai voltar para casa. Eu vou continuar aqui todos os dias." |
| 4 a 5 anos | Ela quer uma causa e, se ninguém der uma, ela fornece a sua, em geral algo que ela fez ou desejou. | "O vovô morreu esta noite. O coração dele estava muito doente e os médicos não conseguiram consertar. Ele não vai voltar e a gente não vai ver ele de novo. Nada que você falou, pensou ou fez causou isso." |
| 6 a 7 anos | A permanência está chegando, e com ela a ideia de que isso acontece com todo mundo. A doença fica assustadora. | "A vovó morreu hoje de manhã. Ela tinha um câncer chamado leucemia e o tratamento não conseguiu segurar a doença. Não é uma doença que se pega de ninguém, e não tem nada a ver com uma gripe." |
| 8 a 10 anos | A morte já é entendida como definitiva e causada. Ela tem perguntas que escolhe não fazer na sua frente. | "Eu tenho uma coisa muito triste para te contar. O tio Marcelo morreu hoje à tarde no hospital. Ele foi atropelado por um carro de manhã e os ferimentos foram graves demais para os médicos consertarem. Você pode me perguntar qualquer coisa, agora ou de madrugada, e se eu não souber eu vou dizer que não sei." |
| 11 a 12 anos | Entendimento adulto dos fatos, com uma vontade grande de não ser o diferente da turma e o instinto de cuidar de você. | "A mamãe morreu hoje de manhã. Eu vou te contar o que eu sei e o que eu ainda não sei, e vou continuar te contando. Cuidar de mim não é tarefa sua." |
| 13 anos ou mais | Compreensão adulta da morte e nenhuma experiência adulta dela. | "O Lucas morreu hoje de manhã. Eu vou te contar os mesmos fatos que estou contando aos adultos, porque você tem que ouvir isso de mim e não de um grupo de mensagens. Ele desmaiou no treino de futebol e o coração dele parou." Depois pergunte o que ela quer saber. |
A ressalva importa mais do que a tabela. Schonfeld escreve que as crianças chegam a esses conceitos em média entre os cinco e os sete anos, que a variação entre crianças da mesma idade é grande, e que as crianças tendem a regredir sob estresse. Uma morte na família é sempre estressante, então, como ele diz, as crianças tendem a funcionar como se tivessem uma compreensão menos desenvolvida da morte exatamente no momento em que precisariam de uma compreensão madura.
Quatro perguntas que valem mais do que adivinhar pela idade. Schonfeld propõe quatro perguntas para fazer à criança, uma por conceito, para descobrir onde esta criança realmente está. Faça num momento tranquilo e escute, em vez de corrigir na hora:
- Quando uma pessoa morre, ela pode voltar a viver? (irreversibilidade)
- O que acontece com as pessoas depois que elas morrem? Elas ainda conseguem ver, ouvir ou sentir dor? (definitividade)
- O que faz as pessoas morrerem? (causalidade)
- Quem morre? Todo mundo morre algum dia? (inevitabilidade)
Uma criança de seis anos que responde que as pessoas morrem porque fizeram coisa errada precisa da conversa sobre causa antes de qualquer outra.
Quatro conversas completas, palavra por palavra: uma morte súbita para uma criança de quatro anos, uma doença longa para uma de sete, a mãe para uma de dez, o irmão para uma adolescente
Uma morte súbita contada a uma criança de quatro anos, uma doença longa a uma de sete, a morte da mãe a uma de dez, e a morte do irmão a uma adolescente. As crianças são inventadas, as falas delas são as que crianças de verdade costumam dizer, e cada palavra da sua metade está aqui para ser trocada pelas suas. Leia em voz alta uma vez a conversa de que você precisa, para que as palavras estejam na sua boca e não na tela.
1. Uma morte súbita, para uma criança de quatro anos. O avô dela morreu durante a noite.
Você. Clara, vem sentar aqui comigo. Eu tenho uma notícia muito triste. O vovô morreu esta noite. O coração dele parou de funcionar e os médicos não conseguiram fazer ele voltar a bater. Quando uma pessoa morre, o corpo dela para de funcionar completamente e não pode voltar a funcionar. Então o vovô não vai voltar, e a gente não vai ver ele mais.
Clara. A gente pode ir na casa dele amanhã?
Você. Pode. O vovô não vai estar lá, porque ele morreu. A vovó vai estar, e ela vai estar muito triste, e vai ficar feliz de ver você.
Clara. O vovô está com frio?
Você. Não. Quando uma pessoa morre, ela não sente mais nada. Não sente frio e não sente dor.
Clara. Posso comer o meu biscoito?
Você. Pode. E você pode me perguntar do vovô quando você quiser. Hoje eu vou te colocar na cama, amanhã eu te levo na escolinha, e eu vou estar aqui a semana toda.
A conversa corrige a única coisa que ela acredita, que é que ele está em algum lugar sentindo frio, e depois responde a pergunta do biscoito sem hesitar. Voltar para o biscoito não é sinal de que ela não entendeu. Ela vai perguntar tudo isso de novo esta semana, e as respostas não devem mudar.
2. Uma doença longa, para uma criança de sete anos. A avó dele teve leucemia por dois anos e ele sabia que ela estava doente.
Você. Tomás, senta aqui comigo um minuto. Eu tenho uma notícia triste da vovó. A vovó morreu hoje de manhã, no hospital, com o vovô e comigo ao lado dela. A leucemia tinha deixado o corpo dela fraco demais, e no fim o corpo dela parou de funcionar.
Tomás. Mas ela estava tomando o remédio.
Você. Estava. O remédio funcionou por muito tempo e deu mais dois anos com ela, e depois parou de funcionar. Isso não é porque ela fez alguma coisa errada, nem porque alguém fez.
Tomás. Leucemia pega? Eu posso ter?
Você. Não. Leucemia é um câncer do sangue. Você não pega de ninguém e ninguém passou isso para a vovó. Não tem nada a ver com uma gripe, e de quase toda doença que eu e você pegamos, a gente fica bom.
Tomás. Eu não fui ver ela da última vez.
Você. Eu sei. Isso não mudou nada na doença dela, nem um pouquinho. Ela sabia que você amava ela, e eu contava para ela toda vez. Muita gente fica com vontade de ter ido mais uma vez. Eu também.
A conversa nomeia a doença, separa ela de toda gripe que ele vai pegar no inverno, e recebe a culpa que ele quase confessa no fim, sem tentar convencê-lo de que o sentimento não existe. Ele disse a frase mais importante por último, o que é normal.
3. A mãe, para uma criança de dez anos. A frase, os fatos e as respostas práticas. Nada aqui precisa de enfeite.
Você. Pedro, eu tenho que te contar uma coisa muito triste e vou te contar agora. A mamãe morreu hoje à tarde no hospital. O coração dela parou, e os médicos trabalharam nela por muito tempo, e não conseguiram fazer ele voltar.
Pedro. Não. Ela estava bem na terça.
Você. Estava. Aconteceu muito rápido e ninguém esperava, nem os médicos. Eu vou te contar qualquer coisa que você quiser saber, hoje ou daqui a um mês, e se eu não souber eu vou dizer que não sei.
Pedro. Quem vai me levar na escola?
Você. Eu. Na segunda e todos os dias depois disso. Nada sobre onde você mora ou quem cuida de você vai mudar.
Pedro. Eu tenho que contar para todo mundo?
Você. Não. Eu vou escrever para a escola hoje à noite, para você não ser quem tem que dizer isso. Você conta para quem você quiser, quando quiser, e para ninguém se você preferir.
O fato primeiro, e depois as duas coisas de que uma criança de dez anos mais precisa: os fatos da morte e a continuidade da vida dela. A pergunta sobre contar para todo mundo é a que os adultos esquecem, e tirar essa tarefa dela quase sempre é o certo.
A mesma abertura, quando quem morreu é o pai. A forma não muda e a ordem também não. Só mudam a causa e o nome da pessoa:
Pedro, eu tenho que te contar uma coisa muito triste e vou te contar agora. O papai morreu hoje à tarde no hospital. Ele teve um AVC de manhã, que é uma lesão de repente dentro do cérebro, e os médicos não conseguiram consertar o estrago. Ele não acordou mais e não sentiu dor. Eu vou te levar na escola na segunda e todos os dias depois disso, e nada sobre onde você mora ou quem cuida de você vai mudar.
4. O irmão, para uma adolescente. A orientação da Child Bereavement UK sobre a morte de um irmão dá a forma desta: as mesmas palavras diretas, uma culpa específica enfrentada antes de ser dita, e um lugar diferente dentro da família.
Você. Beatriz, vem sentar aqui comigo. O Lucas morreu hoje de manhã. Eu vou te contar exatamente o que aconteceu, igual estou contando aos adultos. Ele desmaiou no treino de futebol hoje de manhã. O coração dele parou e a equipe do resgate não conseguiu fazer ele voltar. Os médicos acham que havia alguma coisa no coração dele que ninguém sabia, e eles vão nos contar mais nesta semana. Isso é tudo o que eu sei agora. Quando eu souber mais, você vai saber mais, no mesmo dia que eu.
Beatriz. Eu fui horrível com ele semana passada.
Você. Eu quero te dizer uma coisa sobre isso antes que você carregue isso por aí. Nada que você disse a ele, e nada que você pensou dele, teve qualquer relação com ele morrer. Irmãos dizem coisas horríveis um para o outro. Não foi isso que aconteceu aqui.
Beatriz. Eu não sei o que eu tenho que fazer.
Você. Não tem nada que você tenha que fazer e nada que você tenha que sentir. Eu também estou de luto por ele, e você não está sozinha nesta casa com isso. As pessoas vão dizer coisas estranhas para você esta semana, e algumas vão perguntar se agora você é filha única. Você nunca precisa responder isso.
A conversa trata ela como adulta em relação aos fatos, porque Schonfeld alerta que os adultos supõem, errado, que um adolescente capaz de pensar racionalmente não precisa de mais explicação. Ela levanta a culpa em vez de esperar por ela, e a Child Bereavement UK recomenda dizer em voz alta que você também está de luto, para que a adolescente não termine consolando um pai ou uma mãe que finge estar bem. A última fala dá a ela permissão para recusar a pergunta sobre ser filha única, que é uma das coisas mais solitárias que se perguntam a um irmão enlutado.
As quatro perguntas que as crianças fazem, e respostas honestas: foi minha culpa, você também vai morrer, onde ele está agora, ainda posso falar com ele
1. Foi minha culpa? A maioria das crianças nunca faz essa pergunta em voz alta. Schonfeld descreve a noção de causa das crianças pequenas como pensamento mágico, muitas vezes reforçado pelos adultos sem que eles percebam, e escreve que as crianças tendem a assumir a responsabilidade por uma morte ao concluir que os maus pensamentos delas, ou alguma ação sem relação nenhuma, causaram aquilo. O conselho dele é supor que a culpa está ali mesmo onde a criança não poderia de jeito nenhum ter tido qualquer parte, e levantar o assunto você. A formulação que ele sugere é mais ou menos esta:
Muitas das crianças que eu conheci cujo [avô] morreu me contaram que em algum lugar dentro delas sentiam que podia ter sido culpa delas, mesmo quando claramente não era. Eu e você sabemos que pensamentos e sentimentos não fazem uma pessoa morrer. Eu sei que não tem nada que você tenha feito que fez o vovô morrer. Mas eu fiquei pensando se você já sentiu alguma vez o que aquelas outras crianças sentiram.
Para uma criança de quatro anos, mais curto: "Nada que você fez, nada que você falou e nada que você desejou causou isso. Foi a doença dela." Se uma criança acredita que as pessoas morrem porque fizeram coisa errada, essa crença culpa ela por esta morte e diz a ela que ela é a próxima, então corrija direto. Quando quem morreu foi um irmão ou uma irmã, a Child Bereavement UK nomeia o mesmo medo e a mesma resposta: é preciso dizer a eles que não têm culpa.
2. Você também vai morrer? O manual espanhol gratuito Hablemos de duelo, escrito pela psicóloga infantil e de adolescentes Patricia Diaz Seoane para a Fundacion Mario Losantos del Campo, em Madri, é a coisa mais útil já publicada sobre essa pergunta. Ele avisa que as duas respostas curtas saem pela culatra. Um sim seco dá à criança algo para temer hoje à noite. Um não seco é uma mentira que ela vai descobrir depois, e isso custa justamente aquilo de que você mais precisa, que é ela acreditar em você. O que ele recomenda é adiar: concordar que é verdade e colocar isso muito longe. As respostas modelo dele, em português:
- "Sim, meu amor, eu vou morrer, mas só daqui a muito, muito, muito tempo."
- "Eu vou morrer quando você já estiver bem grande e já souber cuidar de você."
- "Claro, meu amor. Mas quando eu morrer você vai estar muito mais velho. Você vai ter feito um monte de coisas, vai ter terminado a escola, talvez até tenha uma família sua, e vai estar trabalhando."
As crianças levantam a objeção óbvia, porque alguma delas conhece uma criança cujo pai morreu novo. O manual responde isso também: é verdade, e em geral as pessoas morrem depois de muito, muito tempo, ou quando estão muito, muito doentes. Depois acrescente a metade prática, que nenhuma frase de consolo substitui. Diga o nome de quem cuidaria dela: "Se algum dia acontecesse alguma coisa comigo, a tia Sandra ia cuidar de você, aqui nesta casa, e ela já sabe disso." Um adulto com nome acalma mais medo do que qualquer frase sobre tempo.
3. Onde ele está agora? O corpo é a metade que os adultos pulam. As crianças pequenas pensam de forma concreta e levam as explicações ao pé da letra, escreve Schonfeld, e o exemplo dele é de crianças a quem disseram que o corpo é colocado dentro do caixão e que depois ficaram com medo de ir ao velório, se perguntando o que tinha acontecido com a cabeça. Então descreva literalmente:
O corpo inteiro dele está dentro do caixão, deitado. Amanhã de manhã o caixão vai ser enterrado no cemitério, na terra, ou vai para o crematório, onde um calor muito forte transforma um corpo em cinzas. Ele não sente nada disso, porque ele morreu.
A outra metade é aquilo em que a sua família acredita. Schonfeld diz que as explicações religiosas podem ser compartilhadas com as crianças, mas não devem ser a única explicação da morte. O caso que ele dá é de uma criança a quem disseram que Deus amava tanto o bebê que quis ele de volta como um anjo ao lado dele, e a quem também disseram que a igreja era a casa de Deus, e que então passou a se comportar mal na igreja para que Deus visse que ela não tinha jeito para anjo. Então diga a sua crença como crença, nas palavras da sua casa, depois dos fatos e não no lugar deles, e não empreste uma crença que você não tem só porque ela soa reconfortante. Duas coisas continuam verdadeiras, qualquer que seja a crença da família: ele não vai voltar, e a gente não vai ver ele de novo. Quando você chegar ao fim do que sabe, a Sociedade Brasileira de Pediatria oferece a melhor frase disponível na sua orientação sobre luto infantil: eu não sei, vamos descobrir juntos.
4. Ainda posso falar com ele? Pode. Em muitas casas falar com quem morreu não é um mal-entendido a ser corrigido, é o que a família faz: no cemitério, na frente da foto na estante, na missa, em oração, em voz alta dentro do carro. Nada disso precisa de reparo, e uma criança a quem se diz que isso é bobagem perde a pessoa e o costume de uma vez. O que vai ao lado disso é a parte que é verdade qualquer que seja a crença da família, dita em palavras que uma criança consegue segurar:
- "Sim. Você pode falar com ele quando quiser, em voz alta ou na sua cabeça, e não precisa me contar."
- "Ele não vai voltar, e a gente não vai ver ele de novo. Falar com ele é uma coisa que as pessoas fazem a vida toda."
- "Se você quiser dizer alguma coisa para ele e preferir que eu esteja junto, vem me chamar, a qualquer hora, inclusive no meio da noite."
Depois dê a ela algo para fazer com isso. Dar boa noite para a foto. Guardar uma caixa no quarto dela. Ir ao cemitério, se a família vai. Ou deixar que ela escreva para ele: o nosso guia de como escrever uma carta para quem morreu foi escrito para adultos, e o roteiro de gratidão dele, as coisas pelas quais você nunca conseguiu agradecer, funciona para uma criança de oito anos com uma ajudinha.
Frases a evitar e o que dizer no lugar
Isso não é questão de delicadeza, é questão de literalidade. Uma criança de quatro anos ouve o que você disse e não o que você quis dizer, então a frase escolhida para amenizar o golpe costuma ser a que vai precisar ser desfeita seis meses depois.
| Em vez de | Diga |
|---|---|
| "Nós perdemos o vovô." | "O vovô morreu." Não se perdeu nada e ninguém está procurando. |
| "A vovó faleceu." "O seu pai partiu." | "A vovó morreu." "O seu pai morreu." |
| "Ela virou estrelinha." "Ele virou anjinho." | "Ela morreu." Depois, se a sua família acredita nisso, a sua crença dita como crença, e não no lugar do fato. |
| "Ele está dormindo." "Ele pegou no sono." | "Ele morreu. Morrer não é como dormir. Quem dorme acorda, e ele não vai acordar." |
| "Ela foi fazer uma viagem longa." "Ela está no hospital." | "Ela morreu. Ela não vai voltar, e não é porque ela escolheu ir embora." |
| "Foi melhor assim." "Ele foi desta para melhor." | "Ele morreu, e isso é muito triste. Pode chorar o quanto você precisar." |
| "Ele ficou muito doente e morreu." | "Ele tinha um câncer chamado leucemia. Não é o tipo de doença que a gente pega de alguém." |
| "A vovó está te olhando lá de cima o tempo todo." | "A vovó morreu. A gente pode falar dela, e falar com ela, quando quiser." |
| "Deus precisava mais dele do que a gente." | Os fatos primeiro, e depois as palavras da sua própria casa para a sua própria crença, ditas como crença. |
| "Seja forte. Seja forte pela sua mãe." | "Você pode chorar o quanto e o tempo que precisar. Cuidar da sua mãe não é tarefa sua." |
| "Vai ficar tudo bem, está tudo bem." | "Isso vai ser difícil por um tempo, e eu vou estar aqui durante tudo isso." |
As linhas vêm de lugares diferentes, então vale dizer quem nomeia o quê. A Child Bereavement UK nomeia a família do perdemos, do faleceu, do foi para as estrelas e do está dormindo, e diz que os eufemismos podem parecer mais gentis enquanto causam confusão. O Memorial Sloan Kettering Cancer Center, cujo guia para famílias é publicado em russo, espanhol e chinês além do inglês, nomeia partiu e foi embora. O Dougy Center nomeia faleceu, foi dormir, atravessou e perdemos numa só linha, e é a fonte de dizer o nome da doença. A linha de quem olha lá de cima carrega um alerta do Pro Palliativ, projeto educativo da instituição de cuidados paliativos Vera, na Rússia, que observa que a imagem reconfortante de um avô olhando de cima tende a produzir ansiedade em vez de calma, e que nomeia duas mentiras locais a evitar: ela está no hospital e ela foi fazer uma viagem longa. As duas estão na tabela acima porque em português elas são ditas exatamente assim. As linhas da estrelinha, do anjinho, do foi desta para melhor e do seja forte pela sua mãe não vêm de nenhuma dessas fontes: elas estão aqui porque são o que de fato se diz em português, na sala e na porta do velório.
A criança deve ir ao velório e ao enterro? Uma folha de decisão
Duas honestidades primeiro. Schonfeld diz com clareza que se pesquisou pouco sobre isso e que a orientação dele vem da própria experiência clínica. E a Child Bereavement UK relata as duas metades a partir das próprias crianças: algumas que não receberam a escolha contaram à instituição que ficaram profundamente ressentidas por não terem sido incluídas, mesmo quando a decisão foi tomada com a melhor das intenções, enquanto as crianças que foram preparadas e participaram não se arrependeram de ir. Nenhuma das duas fontes define uma idade mínima. A sua tradição ou a sua família pode definir uma, e isso é uma questão diferente do que diz a orientação; o que a orientação diz é que a decisão pertence à criança e à família, e não a uma regra.
| A decisão | O que diz a orientação | O que dizer |
|---|---|---|
| Se ela vai | Ofereça a escolha sempre que for possível. As crianças que não a recebem podem construir do dia uma imagem mais assustadora do que a realidade. | "Hoje à noite tem o velório da vovó e amanhã de manhã o enterro. Você pode ir, ou pode ficar com a tia Marta. As duas coisas estão completamente certas." |
| Se a escolha é mesmo dela | Deixe claro que a decisão é dela, que não é algo que os adultos esperam, e que ninguém vai criticar ela se disser que não. | "O que você decidir está bom para mim, e eu não vou ficar decepcionado de um jeito nem do outro." |
| Se ela sabe como vai ser | Explique em palavras simples, inclusive que muita gente vai estar chorando. Ver o lugar antes ajuda. Prepare ela para o que os adultos podem dizer. | O roteiro abaixo, mais: "Algumas pessoas podem dizer que ela está descansando, ou te perguntar se você está sendo bonzinho com a sua mãe. Você não precisa responder a ninguém." |
| Quem fica com ela | Um adulto que a criança conhece e de quem ela gosta, de preferência alguém um pouco mais afastado da morte: uma babá, uma vizinha, um primo. | "A tia Marta vai ficar sentada do seu lado o tempo todo, e quem está cuidando de você é ela, não eu." |
| Se ela participa de algum ritual | Nunca force uma criança a um ritual que ela ache assustador ou desagradável, inclusive beijar ou tocar o corpo. | "Ninguém vai te obrigar a tocar em ninguém, nem a ir lá na frente." |
| Se ela pode sair | Diga antes que ela pode sair a qualquer momento. Uma criança que termina brincando no corredor pode se sentir mais parte do dia do que uma que ficou em casa. | "Se você quiser sair, aperta a mão da tia Marta e vocês dois saem. Você não precisa dizer por quê." |
O roteiro de preparação. Esta é a parte que a maioria dos adultos deixa de fora e a parte que decide como vai ser o dia. Diga em casa, com os seus próprios detalhes, assim que a hora e o lugar estiverem marcados. E saiba que em geral você tem uma hora, não uma noite: entre nós o velório costuma acontecer no mesmo dia e o enterro ou a cremação na manhã seguinte, e no velório o caixão em muitos casos fica aberto, então a criança precisa saber disso antes de entrar na sala. Se o caixão for fechado, ou se a família optar pela cremação, diga isso em vez do que está abaixo, na mesma ordem. Diga no carro, se for o tempo que você tem.
Hoje à noite tem o velório da vovó, na capela do cemitério aqui perto, e amanhã de manhã o enterro. O corpo da vovó vai estar numa sala, dentro de um caixão, e o caixão vai estar aberto, então quem quiser pode ver o rosto dela. Você não precisa ver, e ninguém vai te obrigar. O corpo inteiro dela está ali, deitado. Vai ter umas sessenta pessoas, e muitas vão estar chorando, inclusive eu e inclusive o vovô, e é para isso que o velório serve. Alguém vai falar da vovó. Depois do enterro todo mundo volta para a nossa casa e tem comida e café. A tia Marta vai ficar sentada do seu lado, e se você quiser sair em qualquer momento, aperta a mão dela e vocês saem.
A frase sobre o corpo inteiro estar ali, deitado, existe pelo motivo que Schonfeld dá: as crianças do exemplo dele ouviram que o corpo vai dentro do caixão e não quiseram entrar, porque estavam se perguntando o que tinha acontecido com a cabeça.
Ver o corpo é uma pergunta diferente. A Child Bereavement UK trata ver o corpo como assunto separado, e as condições são mais rígidas. A escolha tem que ser genuína, a criança precisa saber que ninguém espera isso dela, e ela pode mudar de ideia a qualquer momento, inclusive na porta. Tudo o que ela possa ver ou tocar deve ser descrito antes: a sala, quem mais vai estar lá, o que ela está vestindo, com o que ela está coberta, e que ela vai estar fria ao toque e com a pele muito pálida. Se você não tiver condições de estar na sala, encontre outro adulto de confiança para entrar com ela, em vez de cancelar a chance dela de ir.
Se ela não for. Inclua ela no encontro depois. Deixe ela desenhar ou escrever um cartão para ser colocado no caixão. Encontre em casa um jeito reservado de marcar aquela hora. E lembre do que diz a Child Bereavement UK na sua orientação sobre explicar um funeral: nunca é tarde para fazer uma homenagem ou outra cerimônia que inclua a criança se despedindo. A missa de sétimo dia, onde a família a faz, costuma ser exatamente essa segunda chance.
As primeiras semanas: como é o luto em cada idade
A coisa mais útil de saber sobre as primeiras semanas é que uma criança que parece bem não é prova de nada. Schonfeld escreve que as crianças sofrem profundamente e por longos períodos, mas podem não dar essa impressão aos adultos, porque não sustentam emoções fortes por muito tempo. O luto chega em rajadas: vinte minutos dele, e depois futebol. A conversa que ele descreve é a que você deve vigiar em si mesmo. O pai ou a mãe que ficou diz que a criança está ótima enquanto ele mesmo está desmoronando, e a conversa para ali. O que a criança fica carregando sozinha é justamente a parte assustadora: se foi culpa dela, se você vai morrer em seguida, e quem cuidaria dela se isso acontecesse.
| Idade | O que você pode ver | O que ajuda |
|---|---|---|
| Menos de 5 anos | Retrocesso em coisas já aprendidas, muitas vezes a fala ou o desfralde. Sono picado, mudança no comer, grude. | Trate o retrocesso como temporário e não faça dele um segundo problema. Mesma cama, mesmo café da manhã, mesmas pessoas. |
| 5 a 7 anos | Brincar de velório ou de doença com os brinquedos. Perguntas factuais repetidas. Medos novos de doença ou do escuro. | Deixe a brincadeira acontecer sem interromper. Dê os fatos de novo sem suspirar. Responda à versão específica do medo. |
| 8 a 10 anos | Chorar escondido, dificuldade de concentração, dor de cabeça e de barriga, raiva em alvos estranhos, inclusive você e a pessoa que morreu. | Ofereça informação sem ser perguntado. Diga que ter raiva de quem morreu é normal. Baixe as exigências de casa por um semestre. |
| 11 a 12 anos | Competência na superfície. Assumir tarefas que não são dela. Uma vontade grande de parecer igual a todo mundo na escola. | Retome as tarefas de adulto, em voz alta. Faça perguntas diretas, em vez de ler o rosto dela. |
| 13 anos ou mais | Isolamento, muitas horas fora, risco, ou nada visível. O luto mostrado aos amigos e não a você. | Continue oferecendo sem exigir uma cena. Um adolescente que pensa como adulto ainda precisa de explicações. |
Avise a escola e combine um sinal, por e-mail antes de a criança voltar, para que nenhum professor descubra na frente da turma:
Prezada professora Fernanda, escrevo para avisar que a mãe do Pedro, a Carla, morreu na quinta à tarde. O Pedro tem dez anos e sabe todos os fatos. Ele volta para a escola na segunda. Ele prefere que não seja anunciado para a turma, e concorda que a senhora conte aos outros professores.
Queria combinar uma coisa. Se ele precisar sair da sala, ele vai colocar o estojo em cima da carteira e ir até a biblioteca, sem ter que pedir. A coordenadora, dona Célia, disse que aceita ser a pessoa a quem ele procura. As tarefas dele podem atrasar por um tempo, e, por favor, me conte se a senhora notar qualquer coisa que preocupe, por pequena que seja. Obrigado, Paulo Matos
A visão longa, sobre a qual ninguém avisa. Schonfeld escreve que as crianças fazem o luto em etapas, ao longo de muitos anos, e reprocessam a morte em cada nova fase da vida, levando a ela um pensamento e um sentimento novos até chegar a uma explicação que as satisfaça. Então uma criança que aceitou aquilo aos seis anos pergunta tudo de novo aos onze, e outra vez aos dezesseis com perguntas mais difíceis. Isso não é recaída e não é falha da sua explicação. É a mesma criança, com uma cabeça maior, perguntando direito.
Os dias mais difíceis chegam pelo calendário, e não ao acaso. O nosso guia do primeiro Natal sem um ente querido tem uma seção escrita para as crianças, e o que dizer no aniversário de morte traz as palavras para o dia em si.
Quando o primeiro a morrer foi um animal da casa, e a conversa que vem com isso
Para muitas crianças a primeira morte que elas encontram é a de um animal, e para muitos pais é a primeira vez que precisam dizer a palavra em voz alta. A Child Bereavement UK aplica exatamente a mesma regra à morte de um animal de estimação: use as palavras morreu e morto, e não foi dormir ou perdemos. Uma coisa que esta página não vai afirmar é que a morte de um animal prepara uma criança para a morte de uma pessoa. Nenhuma fonte que lemos diz isso. O que é verdade é mais estreito: as palavras são as mesmas, as perguntas são as mesmas, e é treino de verdade para o adulto.
A consulta no veterinário é onde a linguagem dá errado, porque a frase que se usa em português para isso é justamente a frase a evitar: a gente vai fazer ele dormir. Planeje a sua frase antes de ir:
O veterinário deu uma injeção de remédio no Pingo. Não doeu nele. A injeção parou o coração dele, e então ele morreu. Ele não vai acordar, porque morrer não é a mesma coisa que dormir.
Se o animal morreu em casa ou na rua, a mesma forma serve: o que aconteceu, que o corpo dele parou de funcionar, que não pode voltar a funcionar, e que nada que a criança fez causou aquilo. A pergunta da culpa aparece aqui também, porque uma criança que deixou o portão aberto já chegou a essa conclusão sozinha. O resto da orientação da instituição é igual ao de uma pessoa, em tom menor: deixe a criança sentir o que ela sentir, seja claro e honesto, ajude ela a lembrar do animal de um jeito concreto, e tenha paciência com o tempo que isso leva.
Quando pedir ajuda, e a quem
Dois limiares que um pai ou uma mãe pode usar, e nenhum dos dois é uma lista para dar nota ao seu filho.
O primeiro é sobre tempo e alcance. O manual espanhol citado antes dá a versão mais prática: observe o que persiste e o que se espalha. Não conseguir retomar o fio da escola, ou voltar aos amigos e às atividades. Oscilações extremas de humor. Tristeza que impede a criança de funcionar. Assumir responsabilidade muito além da conta. Medos que voltam, ou pensamentos que voltam sobre a morte. Culpa. Qualquer coisa que siga em frente ao longo do tempo, ou que alcance muitas áreas da vida dela, ou que atrase o desenvolvimento dela. Duas semanas difíceis não são isso. Quatro meses de uma vida que vai encolhendo são.
O segundo é sobre comportamento, e não sobre sentimento. A versão do Dougy Center é que a maioria das crianças e dos adolescentes volta ao jeito como funcionava antes da morte, que alguns correm risco de dificuldades como depressão, ansiedade ou problemas na escola, e que, se você notar comportamentos persistentes que interferem na vida diária da criança, deve procurar a orientação de um profissional de saúde mental qualificado. A vida diária é o teste. Triste não é sintoma. A mesma orientação diz o que perguntar a quem você encontrar: a experiência e a formação dessa pessoa em luto e perda, a experiência dela com crianças, e como ela trabalha.
Por que um profissional olha mais cedo para uma criança do que para um adulto. A Associação Americana de Psiquiatria resume os critérios do transtorno de luto prolongado com janelas diferentes para os dois: pelo menos um ano desde a morte para um adulto, pelo menos seis meses para uma criança ou um adolescente. Quem faz esse trabalho começa a olhar mais cedo para as crianças, então isso é um motivo para procurar ajuda antes, e não uma caixinha para marcar.
Uma coisa que não é item de lista. Se uma criança de qualquer idade falar de querer morrer, de ir junto com a pessoa que morreu ou de acabar com a própria vida, isso não é algo para ficar de olho. Procure hoje o pediatra da criança. No Brasil, o CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora do dia e da noite, e em caso de risco imediato o SAMU é o 192; em Portugal, o 112 e a Linha SNS 24, no 808 24 24 24. Hoje, não depois do enterro.
Três mortes que esta página deliberadamente não roteiriza. Uma morte por suicídio, uma morte violenta e uma morte que a criança presenciou. Cada uma muda o que dizer e em que ordem, a orientação varia de país para país, e nesses três casos errar as palavras causa dano real. A Child Bereavement UK mantém orientação separada para essas mortes, e os serviços abaixo também. Use essa orientação, em vez de adaptar qualquer coisa daqui.
O seu próprio apoio conta como apoio à criança. O Dougy Center observa que pesquisas associam o quanto uma criança vai bem depois de uma morte ao quanto vão bem os adultos ao redor dela.
| Onde você está | A quem procurar, e o que oferecem |
|---|---|
| Brasil | A orientação sobre luto infantil da Sociedade Brasileira de Pediatria é o ponto de partida em português. Para atendimento: o pediatra da criança, o serviço de psicologia do hospital que cuidou da pessoa que morreu, e o CAPSi, o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil, onde houver, ou o CAPS de referência da sua região, pelo SUS. Para conversar a qualquer hora, o CVV, no 188, gratuito. |
| Portugal | APELO, Espaço do Luto, em Aveiro, que trabalha nos dois países e forma profissionais em luto. A Linha SNS 24, no 808 24 24 24, encaminha para apoio psicológico, e a escola e o centro de saúde da sua área em geral conhecem o serviço mais próximo. |
| Reino Unido | Child Bereavement UK, linha de apoio 0800 02 888 40. Especialistas em luto, sem marcação e sem fila de espera, das 8h às 20h de segunda a sexta, exceto feriados, em todo o país, para jovens até 25 anos. Também Grief Encounter, cuja linha grieftalk é 0808 802 0111, e Hope Again, o lado jovem da Cruse Bereavement Support. |
| Estados Unidos | O Dougy Center, em Portland, apoia crianças, adolescentes, jovens adultos e os pais deles desde 1982. O diretório da National Alliance for Children's Grief lista 669 endereços, com filtro por serviço, faixa de idade e idioma. É voltado para os Estados Unidos: o menu de estados acrescenta apenas Austrália, Bermudas, Canadá, Japão, Países Baixos e Nova Zelândia. |
| Espanha | Fundacion Mario Losantos del Campo, em Madri, que mantém um serviço gratuito de psicoterapia de luto infantil e publica o manual citado acima. |
| Itália | VIDAS, em Milão, no 02.300808.1: um plantão psicológico gratuito com até seis sessões de apoio ao luto, e consultorias com professores. |
| Países Baixos | Stichting Achter de Regenboog, linha de orientação 085 047 15 71, para crianças e jovens que perderam alguém próximo. |
| Alemanha | Nicolaidis YoungWings Stiftung, em Munique: ajuda depois da morte de um pai ou de uma mãe para crianças, jovens e jovens adultos, presencialmente na Sternenhaus, por telefone ou online. |
| França | Empreintes, em Paris: uma linha nacional de escuta no luto, aberta a qualquer pessoa diante de uma morte, e um grupo de apoio mútuo para crianças enlutadas. |
| Rússia | Pro Palliativ, projeto educativo da instituição de cuidados paliativos Vera, publica orientação para pais sobre como falar de morte com uma criança e nomeia as mentiras locais a evitar. |
| Em qualquer outro lugar | O pediatra da criança, a escola, e o hospital ou o serviço de cuidados paliativos que cuidou da pessoa que morreu em geral conseguem indicar um serviço local. A Child Bereavement UK publica material em árabe, farsi, ucraniano, espanhol, dinamarquês, sueco e tigrínio, e a linha de apoio dela fala com quem procura de fora do Reino Unido também. |
O que o seu filho vai querer aos dezoito, e o que você pode gravar esta semana
As perguntas deste guia são as que uma criança faz esta semana. Aos dezoito ela faz outras, a quem ainda estiver ali. Como era a voz dela. O que ela pensava de mim. As respostas estão dentro de casa agora, na cabeça de adultos cansados demais neste mês para pensar em 2040. Três coisas pequenas, nenhuma delas de uma noite inteira:
- Anote a conversa que você acabou de ter. O que você disse, o que ela perguntou, as palavras que ela usou. Em dez anos ninguém vai lembrar delas.
- Grave dois minutos da sua própria voz. Não um discurso: uma história comum sobre a pessoa que morreu, contada do jeito que você contaria na mesa. O nosso guia de como gravar a sua voz para a sua família cobre a parte prática. E se a única gravação da pessoa que morreu for um recado de voz antigo, isso tem prazo: veja como salvar um recado de voz antes que alguém cancele a linha telefônica.
- Escreva uma carta para a frente, para ser lida daqui a anos, quando a criança tiver idade de querer a resposta mais longa. As nossas cartas para os marcos da vida dos seus filhos e as cartas para abrir aos 18 anos têm exemplos para começar, e se quem está morrendo é o adulto que quer escrever, cartas depois de um diagnóstico terminal foi escrito para isso.
O Goodbye App foi feito para a terceira delas. Uma carta leva o que você escreveu e uma gravação da sua voz dizendo aquilo, então a história e a voz que conta a história viajam juntas. Você escolhe o dia e a hora em que ela chega, com até 30 anos de antecedência, que é exatamente a distância entre uma criança de quatro anos e uma mulher de trinta e quatro, e ela chega como um e-mail para as pessoas que você indicar. A carta fica privada até ser enviada, é gratuita, e funciona em 15 idiomas, na web e no Android. Se você ligar a salvaguarda opcional de inatividade, as cartas saem antes caso a sua conta fique em silêncio por um período que você define, entre 3 e 45 dias.
Nada disso é o ponto desta página. Nada gravado ou agendado substitui a conversa, e uma carta para os dezoito anos não serve para uma criança a quem não se contou a verdade aos quatro. Diga a frase primeiro. O resto pode esperar até a casa ficar quieta.
Perguntas que os pais fazem
Em quanto tempo eu devo contar? O mais rápido que você conseguir, e de preferência hoje. As crianças descobrem de qualquer jeito, por uma ligação ouvida pela metade, por um primo, por um colega, por uma tela. A única coisa que você pode decidir é se elas vão ouvir de alguém que ama elas.
Com que idade uma criança entende a morte? Schonfeld coloca a média entre os cinco e os sete anos para os quatro conceitos que formam uma compreensão adulta, com grande variação entre crianças da mesma idade, e alerta que as crianças regridem sob estresse, o que uma morte na família sempre é. Então uma criança de sete anos pode ouvir isso como uma de quatro nesta semana. As quatro perguntas da seção das idades descobrem onde o seu filho realmente está, o que vale mais do que adivinhar pela data de nascimento.
Como eu conto a uma criança que o avô, o pai ou a mãe morreu? As mesmas quatro partes na mesma ordem, com o nome dele e a causa da morte dentro delas. A segunda tabela desta página traz a frase de partida para cada parentesco, a tabela das idades dá a frase para cada ano, a primeira conversa é um avô contado a uma criança de quatro anos, e a terceira tem a versão do pai escrita por inteiro para uma criança de dez. Use o nome que a criança usa para ele, papai ou vovô, e não "o seu pai".
Eu conto a todas as crianças juntas? Em geral juntas, para que ninguém carregue um segredo por uma tarde, e depois alguns minutos a sós com cada uma. A primeira frase pode ser a mesma para todas. A segunda não pode ser a mesma para uma criança de quatro anos e uma de doze.
Pode chorar na frente dela? Pode, e ajuda. Dê nome ao que está acontecendo, para ela não ficar adivinhando: "Eu estou chorando porque eu sinto muita falta dela. Em uns minutos eu vou estar bem." Uma criança que vê um adulto ficar triste e depois passar o arroz aprendeu algo verdadeiro sobre o luto.
Eu preciso contar como a pessoa morreu? Conte o fato e a causa em palavras simples, inclusive o nome de uma doença. Não todos os detalhes, e o teste para cada um deles é simples: saber disso muda o que a criança entende, ou só o tamanho do medo dela?
Eu já disse que ela estava dormindo. Estraguei tudo? Não. Nada está quebrado, e o reparo é uma frase dita hoje: "Ontem eu te disse que o vovô tinha pegado no sono. Não foi o jeito certo de te contar e eu quero contar direito. O vovô morreu." As crianças aceitam uma correção de um adulto de confiança muito melhor do que uma história que continua não fechando.
Ele não reagiu a nada. Devo me preocupar? Quase certamente não. Deixe a porta aberta em vez de perguntar seis vezes por dia como ele está: fale da pessoa que morreu em conversa comum, deixe a hora de dormir longa o bastante para uma pergunta, e responda o que ele trouxer, quando ele trouxer.
Ela deve voltar logo para a escola? Muitas crianças querem o comum de volta rápido, e é na escola que mora a maior parte dele. Escreva primeiro para a escola, combine um adulto e um jeito de sair da sala, e deixe ela ir.
E se os adultos da família discordarem sobre o que contar? Combinem uma frase antes de alguém falar, mesmo que seja um acordo no meio. Uma criança que ouve duas versões conclui que a verdade está sendo administrada e começa a procurar por ela em outro lugar.
Como eu explico a morte para uma criança autista, ou para uma criança que tem dificuldade com a linguagem? As mesmas palavras simples, mais ao pé da letra, mais vezes, e com mais aviso sobre tudo o que vai mudar na casa. Tire toda figura de linguagem, inclusive as gentis. Diga o que vai acontecer e em que ordem, e espere repetir isso com as mesmas palavras. Os serviços de apoio ao luto listados acima são a quem pedir orientação escrita para o seu próprio filho.
E se eu errar? Você vai errar parte disso, e isso vai importar muito menos do que você teme. O que as crianças guardam desta semana não é a formulação. É que alguém contou a verdade a elas, ficou na sala enquanto elas recebiam aquilo, e voltou no dia seguinte para responder a mesma pergunta de novo.
Se você está lendo isto porque está pensando em suicídio, por favor, converse com alguém hoje. O findahelpline.com reúne linhas de apoio gratuitas e confidenciais no seu país, e há mais informações na nossa página sobre suicídio e automutilação.
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